Como a universidade pode renovar seus compromissos com a sociedade em meio às transformações do século XXI?

Este é o primeiro de uma série de três textos em que proponho refletir sobre os desafios contemporâneos da universidade pública brasileira, seus sistemas de avaliação e o compromisso social da ciência no país. Desde já, vale uma nota preliminar: não se trata de oferecer respostas fechadas, mas de levantar algumas pistas para repensarmos os sistemas de avaliação, o financiamento da ciência e o papel público da universidade brasileira nos próximos anos.
Vivemos um momento de inflexão na história da universidade pública brasileira. Nunca se falou tanto em inovação, em internacionalização e na necessidade de uma ciência aberta e colaborativa. No entanto, enquanto discutimos grandes diretrizes e novos modelos de avaliação científica em congressos e reuniões de colegiado, existe uma dissonância crescente entre esses planos estratégicos e o cotidiano vivido dentro dos campi. É como se estivéssemos desenhando mapas para um território que está se transformando mais rápido do que conseguimos compreender.
Por isso, antes de falarmos sobre métricas, produtividade ou o futuro da ciência brasileira, precisamos encarar uma realidade incômoda que se impõe nos corredores das nossas instituições. Algo está mudando (e não necessariamente para melhor) na relação entre a universidade pública e as pessoas que deveriam dar vida a ela.
Nos anos recentes, temos assistido a um fenômeno Incômodo: recordes sucessivos de taxas de evasão e uma diminuição sensível na procura e nas matrículas do ensino superior. Mas os números frios das estatísticas são apenas a ponta do iceberg. O sintoma mais agudo reside no cotidiano, manifestando-se em relatos frequentes de descontentamento com o ambiente da sala de aula. Há um curto-circuito na comunicação que não podemos mais ignorar.
De um lado, vejo e ouço alunos frustrados. A crítica é recorrente: muitos sentem que os professores, embora detentores de vasto saber acadêmico, encontram dificuldades em traduzir esse conhecimento de forma clara e explícita. O uso de metodologias consideradas ultrapassadas cria uma barreira, fazendo com que o conteúdo programático pareça distante, árido ou desconectado da realidade vibrante e complexa que esses estudantes vivenciam fora dos muros da universidade.
Do outro lado, vejo professores exaustos e igualmente críticos. Muitos apontam para uma suposta apatia, falta de compromisso, interesse ou empenho por parte dos discentes. Há uma sensação de que o pacto de ensino-aprendizagem foi quebrado, gerando um ambiente onde a troca intelectual é substituída pela cobrança mútua e pela incompreensão.
Esse cenário de salas esvaziadas (seja pela evasão física ou pela ausência de engajamento intelectual) nos obriga a uma autocrítica profunda. Se a universidade não consegue mais reter ou inspirar seus estudantes, como ela espera manter sua relevância para o restante da sociedade?
É diante desse universo de tensões, e do profícuo ambiente de debates que ele suscita, que proponho estas reflexões. Até aqui, tem se tornado cada vez mais evidente, para mim, que para resolver a crise da sala de aula, precisamos olhar para a estrutura maior que rege a vida acadêmica. A universidade pública brasileira precisa projetar-se para o futuro sem perder de vista seu compromisso com o bem público.
Por que repensar os sistemas de avaliação e fortalecer o compromisso público da universidade é urgente no Brasil de hoje?
Essa pergunta tem atravessado as discussões recentes e orientado muitas das reflexões que compartilho aqui. Em meio a transformações sociais, ambientais e políticas profundas, torna-se cada vez mais necessário questionar não apenas o que avaliamos na universidade, mas por que e para quem o fazemos.
Nos últimos séculos, a ciência tornou-se uma das principais ferramentas para a compreensão e a transformação das sociedades contemporâneas. No Brasil, contudo, esse papel tem sido prejudicado por desigualdades históricas, desafios persistentes de financiamento e um ambiente político nem sempre favorável à valorização do conhecimento.
Ao mesmo tempo, novas demandas colocaram a ciência novamente no centro da formulação de respostas a problemas complexos. Nesse contexto, pensar as prioridades para os próximos cinco anos requer mais do que estabelecer metas técnicas. Trata-se de uma tarefa estratégica: explicitar o tipo de ciência que queremos promover.
Precisamos de uma ciência voltada para o bem comum, comprometida com valores democráticos e atenta às desigualdades regionais, epistêmicas e sociais.
Não se trata de negar a importância dos indicadores tradicionais — como produtividade acadêmica, citações ou impacto internacional —, mas de reconhecer que eles são ferramentas limitadas se não forem acompanhados de uma leitura crítica. O avanço da ciência deve ser monitorado por sistemas que combinem indicadores quantitativos e qualitativos, permitindo compreender não apenas os resultados, mas os significados e impactos sociais das práticas científicas.
O Desafio da Instabilidade e do Financiamento
A política científica brasileira tem sido marcada por avanços institucionais significativos desde a segunda metade do século XX, mas também por uma instabilidade constante. O sistema nacional de CT&I enfrenta desafios que limitam seu potencial estratégico.
O primeiro desses desafios é o déficit estrutural de financiamento. Embora o Brasil tenha um dos maiores sistemas públicos de ensino superior da América Latina, os recursos têm flutuado ao sabor das circunstâncias políticas. O esvaziamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), por exemplo, afetou diretamente a capacidade de agências como CNPq e CAPES de coordenar programas estratégicos.
A ausência de uma política de financiamento contínua enfraquece o sistema como um todo, gerando efeitos adversos sobre a formação de pessoal, a renovação de laboratórios e a consolidação de redes de pesquisa.
A Armadilha do “Publicar ou Perecer”
Soma-se a esse cenário a pressão por maior produtividade, muitas vezes expressa no uso acrítico de métricas quantitativas. Essa ênfase — frequentemente desconectada da relevância social e da diversidade dos campos de conhecimento — reforça práticas de avaliação que podem distorcer a missão das universidades públicas.
A cultura do “publicar ou perecer”, importada de contextos acadêmicos hegemônicos, promove o foco no volume e no curto prazo. O resultado? O detrimento de pesquisas aprofundadas, de longo prazo e com raízes regionais.
Isso não apenas fragiliza a originalidade da nossa ciência, como também contribui para um afastamento progressivo entre a produção acadêmica e os problemas concretos enfrentados pela sociedade brasileira. É precisamente esse abismo que precisamos começar a preencher.

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